sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Máscaras perdidas

Foram tantas máscaras usadas nesse meio tempo. Máscaras que esconderam sentimentos, gritos sufocados. Por trás das maquiagens escondia meu rosto de choro; por trás de risos descontrolados oprimia uma tristeza profunda; e por trás de todas as minhas falsas verdades me escondia de rosto lavado, para que apenas eu pudesse me ver assim.
Mas o que eu temia aconteceu. Parece que as máscaras já não saem, e mesmo sabendo que esta que se apresenta à frente de todos não sou eu, já não consigo mais me ver como sou, a minha verdade se perdeu diante de tantas mentiras.
Agora não são mais as risadas que estão descontroladas, agora sei que quem grita é meu coração, e ninguém o escuta.
Socorro, socorro! Me perdi de mim! Por favor, alguém poderia fazer algo para que eu possa me achar? Preciso da minha essência, preciso me ver de cara lavada e não ter vergonha de me mostrar assim, cheia de cicatrizes e feridas que parecem não parar de sangrar. Sou como a criança que se perdeu no shopping e não encontra a mãe, mas a diferença é que ninguém nota o meu choro de desespero.
Me apeguei demais à idéia de que todos deveriam gostar de mim, e sendo assim não poderia ser como eu era, mas a fatal realidade é que com esse vazio já não consigo ser verdade...e nem mentira. Sou apenas alguém que precisa ser encontrada, um vazio que precisa ser preenchido de tudo aquilo que outrora eu ignorei.
Socorro, socorro! Alguém já se sentiu assim? Amigos dos velhos tempos, por quê nem vocês notam o quanto eu estou ausente de mim? Por que todas as promessas parecem estar sendo quebradas, e todos os sonhos desfeitos?
Já não sou aquela que quer salvar o mundo, já que eu mesma pareço não ter salvação. Estou afundando, e mesmo que eu corra o risco de afogar vou até onde for preciso porque não dá para ser outra pessoa, não dá para criar uma outra vida, muito menos nascer de novo... Vou afundando, e dessa vez não insistam vou sem aparelho de mergulho, correndo todos os riscos atrás de alguém que tem valor, alguém que faz toda diferença na minha vida e na vida dos que estão a minha volta.
Adeus, vou em busca de mim.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Migalhas rejeitadas


Já lavei suas roupas, elas estão perfumadas.
Junto com a sujeira, deixei escorrer cano abaixo toda mágoa que um dia tive pelo seu desprezo, todas ironias, discussões, intrigas... Todos os piores pensamentos possíveis.
Deixei com o perfume todas as boas lembranças, todo amor e carinho depositado, e até mesmo os nossos sonhos que nunca foram realizados, não por incapacidade e sim por sua falta de vontade.
Enquanto lavava lembrei de como a gente se olhou pela primeira vez, tão inocentes como são todos os adolescentes, porque mesmo com aquele ar de que sabem tudo sobre a vida lhes falta experiência, e sem esta não prevemos reações e atitudes.
Eu cresci e deixei para trás a garota do olhar perdido dentro dos seus olhos, isso porque eles já não olhavam mais para os meus. Cresci, busquei novos olhares e os encontrei, mas nenhum que me prendesse por mais de alguns segundos.
Algum tempo mais tarde lá estava você, na minha frente, olhando nos meus olhos e me fazendo acreditar novamente em uma aventura que não tinha dado em nada. Mas dessa vez você olhou como nunca, e pela primeira ou segunda vez na vida eu senti o amor.
Mas cá estou, pela segunda e última vez sem você, que novamente teve a necessidade de procurar e se lançar sobre novos olhares, despertando quem sabe paixões por onde passa.
Já lavei suas roupas, e perfumadas estão dentro de uma mala. Que elas possam ir sem meus cansativos discursos para algum lugar que sofra de tanta carência que se conforme com suas migalhas. Ou que em um outro alguém elas deixem de ser migalhas e tornem-se um todo... algo completo. E quem sabe assim, em um futuro não muito distante, fora do seu alcance eu encontre uma alma perdida que assim como a minha tenha essa necessidade de ser uma só, longe de restos e ilusões, e cheia de tudo isso que o mundo se nega a conhecer e compartilhar.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Doar-se



Sentada na calçada, ainda menina - apesar do rosto demarcar mais idade.
A vida não parecia ser muito justa com aquela pequena que sempre sentiu falta de... Falta de um irmão que lhe defendesse dos maiores; falta de uma refeição; falta de um lugar seguro...
Mas hoje já não fazia tanto frio, ela já não sentia tanta fome. A vida nas ruas a ensinou a lidar com todas as faltas e apesar da pouca idade a conhecer os tipos humanos. E mesmo sem nenhum conhecimento em psicologia ela percebia que mesmo as pessoas que passavam de um lado para outro e nem a notavam, traziam uma angústia no olhar. E mesmo não entendendo de matemática ela sabia que muitas vezes quem muito tem não divide e quem pouco parece ter tem a capacidade de doar. E mesmo não conhecendo os mistérios do Universo ela aprendeu que o céu é cheio de beleza e pode até mesmo fazer toda a diferença em uma noite triste. E mesmo não sabendo ler dedicava algum tempo do seu dia olhando as capas das revistas na banca em frente à padaria.
Já não existe medo, nem mesmo choro por não conhecer ninguém nas ruas. Adaptar-se não foi uma tarefa fácil, mas lá estava, sentada na calçada, com olhar fixo a lugar nenhum.
Não se importava de ter a comia quente do restaurante, nem mesmo o brinquedo iluminado da vitrine. Nada disso causa tanto vazio quanto a falta de amor, de um afago, um beijo de boa noite... nem que fosse só por uma noite.
Olha de um lado a outro. Já é tarde. As ruas estão vazias, muitos já dormem. Levanta-se apressada, com uma expressão de preocupação. Corre, corre... O que causaria tanta pressa se ninguém a espera? O que a faria se desesperar se não haverá ninguém a se preocupar se ela está tarde nas ruas?
Olha para um canto da praça central, e lá estava ele, seu cachorro companheiro.
Porque mesmo sem receber, ela sabia que tinha muito a oferecer.

" Não hesite em doar-se, pois o mundo só necessita do olhar atento do amor"

Inspiração: Livro " Capitães da areia " ; trabalhos voluntários